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Publicado em: 12/07/2006
Transporte público é talvez um dos temas mais candentes dos últimos tempos. Não há grande metrópole que não sofra com graves problemas neste setor. Enquanto carros entopem as ruas, e tornam o trânsito lento e caótico, os ônibus se entopem de gente. Os sábios da administração pública descobrem a cada dia maneiras mais e mais caras para conseguir um mínimo de fluidez no trânsito. As decisões mais corretas e baratas são as mais temidas e descartadas, pois carregam um inevitável choque de interesses com quem detém o poder econômico. Os donos de carros, por exemplo e, é claro, seus fabricantes.
É gente assim que acha inadmissível o caos nos aeroportos, mas ignora solenemente o sofrimento de quem toma um trem do metrô para a Zona Leste todo final de tarde em São Paulo. De gente que chacoalha em ônibus superlotados, espremidos num congestionamento monstro, graças a milhares de carros que carregam apenas um passageiro: o próprio condutor...
Cidades como Paris arcam com 67% do custo do transporte público. Na megalópole paulistana sobra para o passageiro arcar sozinho com 86%. É justo? Paga quase que sozinho pelo serviço, e ainda por cima é mal tratado. Não bastasse o que já não fizeram pelo transporte público, ficamos sabendo agora que a prefeitura paulistana estuda acabar com o bilhete único. Como diria a piada, o gato subiu no telhado.
Para quem não mora em São Paulo, ou simplesmente não toma ônibus, eu explico: o bilhete único é o cartão eletrônico que permite aos passageiros de ônibus fazer até quatro viagens nas linhas municipais pagando uma única tarifa no período de duas horas. No raciocino tecnocrata, essa atitude permitiria reduzir quase à metade o custo da tarifa. Mas o problema é que muita gente usa mais de um ônibus para chegar ao trabalho. Ou pior ainda: sem o benéfico do bilhete, acaba andando a pé... Em 2003, 100 mil paulistanos faziam a pé, todos os dias, percursos de mais de uma hora de duração.
Para quem acha que o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, nada melhor do que copiar o sistema adotado em Nova York. O jornalista Elio Gaspari conta que “lá o trabalhador compra por US$ 76 (R$ 160) um bilhete que vale por 30 dias de uso ilimitado. Em São Paulo, o uso do ônibus e do metrô sairá por US$ 94,30 (R$ 198) mensais”.
Esta é a difícil arte da política, e não a baboseira da “arte do possível” - procurar o bem da maioria, o que significa na outra ponta reduzir privilégios, cortar mordomias e fazer uso correto do espaço e do dinheiro público.
Pelo que vemos agora no caso dos supersalários do Judiciário, fica claro como pensam os que detém o poder. No país do “cada-um-por-si” só resta a saída do “salve-se-quem-puder”.
Por: Alexandre Pelegi
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