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Publicado em: 13/07/2006
Concordo com Luis Fernando Veríssimo quando ele escreve que um lugar realmente civilizado é aquele “em que você pode pisar numa faixa de segurança com a certeza absoluta de que os carros pararão para você passar”. Ele justifica: “São as relações entre motorista e pedestre que determinam o grau de civilidade de uma sociedade moderna, e a grande diferença entre o primeiro e os outros mundos é que num o pedestre é respeitado e nos outros o pedestre é um estorvo, a ser corrido da frente a buzinadas.” Como bom exemplo, ele cita a Alemanha.
Nós, os brasileiros, não sabemos o que é isso. O radialista Randal Juliano, morto há algumas semanas, quando queria se referir a alguma coisa pela qual ninguém guardava qualquer respeito disparava a frase: “mais desmoralizada que faixa de pedestre”...
Essa história de civilidade, no caso brasileiro, tem muito a ver com dinheiro. É triste, mas é fato.
Esta questão tomou conta de minha caixa postal depois que coloquei em discussão a necessidade de se disciplinar o uso do espaço urbano. Destaquei o que considero “privatização” de ruas e avenidas pelos proprietários de veículos, em prejuízo dos usuários de transportes coletivos.
Alguns viram “demagogia barata” em meu ponto de vista, afirmando, não sem razão, que podem e devem existir diferenças sociais decorrentes da diferença do poder aquisitivo. Uma ouvinte do Rio de Janeiro me chamou a atenção ao afirmar que “não há impedimento para o pobre também usar mais espaço nas ruas. Ele usará assim que conseguir comprar um automóvel, pagar os impostos, etc, etc...”
Este é o velho dilema de viver em sociedade. Como compatibilizar o interesse individual com o bem-estar coletivo? Onde começa e termina minha liberdade?
Respondi à ouvinte com uma pergunta, que é o argumento principal de minha preocupação: até quando teremos espaço nas ruas suficiente para todos? Deveremos resolver isso a tapa, ou na base da declaração de renda?
O dilema de como viver em sociedade é debate de séculos, e muitos estudiosos e pensadores já queimaram a pestana na busca de respostas. O engraçado é que ao mesmo tempo em que nos digladiamos nas ruas, não sabemos viver isolados uns dos outros. Não sabemos, e não podemos, afinal somos seres gregários...
Assim, enquanto o homem não chega a um consenso, ele vai criando regras para permitir a convivência pacífica entre seus semelhantes. O problema é que isso, quase nunca, funciona de maneira cordata e natural.
Como lembra Veríssimo, no entanto, há maneiras simples de se medir o grau de civilidade de um lugar, de um país, de um povo. Costumes que funcionam de maneira tão natural que nem parecem regras. São gestos e ações assumidos de forma tão natural que nos dão a impressão de fazerem parte da cultura de um povo.
Nós somos cordatos, animados, hospitaleiros. Somos melhores que muitos povos em muitos aspectos. Só torço para que ninguém meça nossa civilidade pelo trânsito.
Por: Alexandre Pelegi
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