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Publicado em: 14/07/2006
Um ouvinte escreveu:
Estava eu ouvindo o primeiro programa dentro do meu carro, indo rumo ao trabalho, diante de um transito caótico, quando ouvi de um dos locutores de maior admiração "Alexandre Pelegi" algo que me deixou encabulado. Dizia ele que em São Paulo, como nas demais grandes capitais do País, o pobre não tem espaço nas ruas, ficam todos amontoados dentro dos ônibus, enquanto isso, à sua volta, existem muitos e muitos carros com apenas um passageiro - o motorista -, ocupando mais espaço do que aqueles que estão nos ônibus. Gostaria de lembrar a Alexandre Pelegi que todos nós que temos carros pagamos impostos para circular nas ruas, e que não são nenhum pouco barato...
Esta é uma conversa difícil, eu sei, mas só com muito debate tal tipo de situação pode ser aclarado. Pagar impostos não nos dá direitos maiores sobre os demais. As ruas são "vias públicas". Pública, de povo, de uso comum. Feitas para todos e, de acordo com nossas leis, "todos são iguais". Mas não é o que se vê na hora do transporte público. Os carros invadem as ruas - que são de todos - ocupando mais espaço. Não há sentido em dizer que porque pago impostos mais caros eu tenho mais direitos sobre meus semelhantes. Está errado isso, não acha? Eu não posso me "achar mais" porque "tenho mais". Não podemos reproduzir nas ruas e cidades um clima de apartheid social.
Nossas cidades estão inviáveis. E o caminho já conhecido e esperado é o caos urbano. Em São Paulo já vigora o rodízio, e daqui a pouco mesmo essa imposição será inútil. Você acha justo que alguém que compra carro, paga imposto (embutidos e visíveis), pode ficar proibido de circular? Pois é exatamente isso o que ocorre em São Paulo, e todo mundo teve de se adaptar, e sabe por que? Porque não há outra alternativa! Ou isso, ou o caos, a cidade pára, a economia entra em colapso. Até para as marginais Tietê e Pinheiros, vias de alta circulação e fundamentais na cidade, já existem projetos de ampliação à base de pagamento de pedágio! É a lógica, não há saída... Quem quiser andar, terá de pagar - além do que já paga, e que é muito...
Trabalhei por anos com transporte público. Um professor e amigo - Dr. Adriano Murgel Branco - fez um estudo a alguns anos e concluiu: os congestionamentos na capital paulistana custavam, por ano, para a economia da cidade (e portanto do país) a bagatela de US$ 15 bilhões... É uma reação em cadeia: custos de saúde pública, danos ambientais, perdas das indústrias e do comércio por conta do stress e dos atrasos, gastos excessivos de combustível por causa da lentidão, etc etc etc.
Este é o triste retrato do futuro próximo que se avizinha: ou as metrópoles investem em transporte público de qualidade, e em quantidade, ou a cidade pára. Não há mais espaço disponível para a construção de vias urbanas. O Estado brasileiro não tem capacidade de investimento, e nem o setor privado se anima, a não ser em troca do salgado pedágio.
É difícil pensar no coletivo, quando o indivíduo sofre tanto num país em que a própria política se sustenta no individualismo. Não há saída se pensarmos apenas em nós, e no direito que cada um temos enquanto cidadão. Os direitos individuais nascem e servem para permitir o direito de todos. Por isso mesmo, repito: a única saída possível para o trânsito está num sistema de transporte público de qualidade. Por que não investimos em alternativas viáveis? Por que damos prioridade para ampliação de vias, construção de viadutos, obras que, sabemos, não resolvem e custam muito caro para o bolso de todos os brasileiros?
Por: Alexandre Pelegi
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